Especialistas no assunto dão dicas para quem ainda não lê quadrinhos e não sabe por onde começar
por Ricardo Ampudia
16 Maio 2021
23h00
–(Clube Lambada/Ilustração)
á muito tempo, os quadrinhos deixaram de ser a iniciação à leitura de crianças e adolescentes para ser uma forma visual de literatura, distante das sagas de super-heróis e mangás, cada vez mais próxima dos clássicos. O universo das graphic novels – que é como o mercado editorial chama as histórias longas e mais densas, geralmente publicadas em um só volume – é imenso, tem espaço para publicações independentes, reportagem, biografias e adaptações de clássicos da literatura.
Para ajudar a navegar e se iniciar nesse mar de letras e traços, convidamos o professor da Faculdade Méliès, William Mur, e Daniel Esteves, roteirista, fundador da escola HQ em FOCO e vencedor do prêmio HQ Mix de 2020. Pedimos três dicas para quem quer começar a ler HQ, se acostumar com a linguagem e mergulhar numa boa história.
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Daniel Esteves indica um mangá clássico dos anos 1970 – outro clássico de Will Eisner, um dos maiores nomes do HQ mundial – e um brasileiro sobre a gripe espanhola que, em tempos de pandemia, é quase atual. “Por mais que as tramas até possam ter alguma complexidade, a forma em si desses quadrinhos não trazem grandes dificuldades para quem não está tão acostumado com essa linguagem”.
Gen Pés Descalços de Keiji Nakazawa
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Um mangá dos anos 70, publicado duas vezes no Brasil pela Editora Conrad: a primeira entre fins dos anos 1990 e começo dos anos 2000.
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O autor, Keiji Nakazawa, é um sobrevivente de Hiroshima que, depois da morte da mãe, resolveu recontar a saga da família na época da segunda guerra mundial. Como foi produzida num momento em que as HQs autobiográficas não eram tão comuns, ele mescla a realidade com ficção para recontar os passos desde antes da bomba até o momento da explosão e o passar do tempo dos sobreviventes.
Quase toda a família dele morreu instantaneamente, junto com outras 80 mil pessoas, mas é ainda mais chocante ver a condição de vida dos sobreviventes no decorrer de mais de um ano. Uma HQ fundamental para relembrarmos o horror que fomos capazes de cometer com as bombas atômicas.
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–(Divulgação/Devir Livraria/Reprodução)
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Avenida Dropsie de Will Eisner
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Praticamente toda a obra dele é fabulosa, sobretudo os livros com histórias completas pós-anos 70. Aqui, podemos usar o tal do termo graphic novel, ja que ele foi um dos que popularizou esse nome. Nessa HQ, Eisner retrata de forma fantástica a cidade e os guetos de imigrantes em Nova Iorque do começo do século 20, com suas pequenas e grandes histórias, em crônicas que fazem dele um dos maiores autores das HQs.
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–(Jupati Books/Divulgação/Reprodução)
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La Dansarina
de Lillo Parra e Jefferson Costa
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Nesta HQ, vemos um momento específico da história do século 20, a pandemia da Gripe Espanhola, que vem bem a calhar nos dias de hoje. Ambientada em São Paulo, em 1918, tem como protagonista um garoto que tenta dar um funeral para sua mãe, vítima da doença.
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–(Erik Mclean/Unsplash)
O ilustrador William Mur indica três títulos brasileiros: o primeiro deles, Estórias Gerais, considera seminal. “Flavio Colin foi o maior desenhista de quadrinhos do Brasil do século 20. Isto não é opinião. Se você ainda não o conhece, corra”.
Ele também indica uma HQ da Turma da Mônica. Isso mesmo: as histórias que moram na infância de qualquer criança brasileira se modernizaram. Em Jeremias – Alma, que vem na sequência de Jeremias – Raça, o único personagem negro dos gibis da turma se questiona sobre representatividade e suas origens.
–(Editora Nemo/Divulgação/Reprodução)
Estórias Gerais
de Flavio Colin e Wellington Srbek
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Esta graphic novel conta a história de coronéis, vinganças e cachorros correndo de tiroteio em cidade pequena. É uma mistura de filme de bang-bang e Guimarães Rosa. O bang-bang traz um gosto de aventura popular, enquanto Guimarães traz um retrato único do sertão brasileiro. Na sua busca por um traço pessoal, Flávio Colin (1930- 2002) encontrou um traço brasileiro em todas as medidas. Moderno e popular.
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–(Editora Draco/Divulgação/Reprodução)
Cortabundas – O Maníaco do José Walter
de Talles Rodrigues
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Esta HQ conta a história real, por incrível que pareça, do tarado que cortava as nádegas das mulheres na periferia de Fortaleza nos anos 80. O autor, Talles Rodrigues, fez este quadrinhos como TCC de seu curso de jornalismo. Mas, esqueça isso. O quadrinhos não tem cara de TCC: é popular no melhor sentido. Engraçado, cheio de situações tipicamente brasileiras e um retrato de uma época. A busca do Cortabundas é desculpa para Talles falar de infância, memória e comédias da vida na periferia tropical. Mais inacreditável do que nunca terem pego o Cortabundas é saber que este quadrinhos não está numa editora gigantesca, sendo distribuído a rodo pelo Brasil.
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–(Graphic MSP/Divulgação/Reprodução)
Jeremias – Alma
de Rafael Calça e Jefferson Costa
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A Maurício de Sousa Produções não foi fundada para fazer gibis e ganhar toneladas de cruzados, cruzeiros, reais ou para virar uma corporação milionária que vende maçã, fralda e shampoo. A Maurício de Sousa Produções foi fundada para lançar este gibi. Todo o resto da Turma da Mônica não dá um gibi da Luluzinha. Jeremias – Pele e Jeremias – Alma são outra coisa, estão em outra prateleira.
Para você ter ideia do que vai encontrar, em um trecho da história, Jeremias pergunta para seus pais: “Algum negro já fez alguma coisa importante?”. Aqui, você entende o crime que é não existir representatividade negra para crianças. Como pode a gente ter aceitado 200 anos de publicação da Mônica sem o Jeremias ter ganhado uma capa? Jefferson Costa e Rafael Calça consertaram essa tradição de preconceito com uma HQ GENIAL. Compre, leia e, principalmente, dê de presente.